IDENTIDADE DE “MÃO DUPLA” EM DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS: VISÕES CRÍTICAS

 

Maria José de Oliveira Santos – UNEB/UFBA

 

Se os fantasmas da unicidade, de uma única raiz identitária podem ser reconvocadas a integrar a trama narrativa, é também verdade que as identidades compósitas, que se desenharam no contexto das Américas, geraram escrituras híbridas abertas à muitiplicidade de origens culturais que as integram.

 

Zilá Bernd. Identidades compósitas: escrituras híbridas

 

A partir dos anos 60 os estudos pós-coloniais possibilitaram uma abertura às discussões até então consideradas proibidas. As vozes silenciadas passaram a incomodar. Os intelectuais de países considerados terceiro-mundistas revelaram-se no próprio terreno do construtor, passando a discutir e questionar o processo de construção: quais as bases que o nortearam e conseguiram desqualificá-los como Outros e Inferiores sufocando as Diferenças? E assim se refere Nestor Garcia Canclini (Culturas híbridas, 1997, p.28) em relação aos recalques das Diferenças resultantes dessa eficiente, mas não indiscutível, construção e discute a América Latina como um conglomerado complexo onde diversidade e pluralidade convivem respeitando-se as múltiplas lógicas de desenvolvimento de cada país, de cada povo, de cada cultura:

 

Também na sociedade e na cultura mudou o que se entendia por modernidade. Abandonamos o evolucionismo que esperava a solução dos problemas sociais pela secularização das práticas: é necessário passar-se, dizia-se nos anos 60 e 70, dos comportamentos prescritivos aos efetivos (...) a condutas próprias de sociedades urbanas em que os objetos e a organização coletiva seriam fixados de acordo com a racionalidade científica e tecnológica. Hoje concebemos a América Latina como uma articulação mais complexa de tradições e modernidades (diversos, desiguais) um contingente heterogêneo formado por países onde, em cada um, existem múltiplas lógicas de desenvolvimento(...)

Nessa linha, concebemos a pós-modernidade não como uma etapa ou tendência que substituiria o mundo moderno, mas como uma maneira de problematizar os vínculos equívocos que ele armou com as tradições que quis excluir ou superar para constituir-se.

 

É a partir dos anos 60 que a multidisciplinaridade interfere e/ou insere-se nesse contexto formado de desigualdades e exclusões viabilizando um estudo onde as relações de poder são revisadas deslocando-se a visão estática da fortalecida e muito bem assentada pirâmide secular. Assim, os estudos identitários passaram a discutir o próprio processo de colonização, as relações entre colonizador e colonizado, mas (re)discutindo a marca da dependência cultural, aceitando-se e considerando-se os empréstimos, as influências, sem ressentimentos. Zilá Bernd assim se refere a este novo espaço de discussões das identidades americanas no ensaio “Identidade compósitas: escrituras híbridas” (1998, p. 5), onde discute e destaca a importância dessas produções para visibilizar a remexida nos critérios que até então classificavam determinadas produções literárias que primavam- e primam- pelo comprometimento da construção dessa identidade universal:

 

As literaturas migrantes, que constituem conjuntos plurais por excelência, interessam na medida em que elas desestabilizam as certezas e as obsessões da crítica de tudo querer classificar, organizar e imobilizar em categorias definitivas. O gesto tradicional de associar um autor a um único quadro de referências como a etnia, a nação, o gênero ou mesmo a língua torna-se insuficiente para dar conta do entrelaçamento de fatores postos em cena (...) Se as identidades são múltiplas e compósitas, a arte e as escrituras que delas se originam serão consequentemente híbridas, “dúcteis e maleáveis”, como afirma Nestor Garcia Canclini, um dos primeiros a valer-se do termo “híbrido” para caracterizar a cultura das Américas.

 

Nessa revisão, determinadas produções literárias encontram seu espaço- sua abertura- através de outras possibilidades críticas perpassadas e orientadas por outras ferramentas teóricas que acompanham justamente os textos considerados polêmicos ao longo do processo de canonização. Nessa reflexão, Bernd convoca o instinto de nacionalidadediscutido e alertado por Machado de Assis que sugere: O que se deve esperar do escritor é um certo sentimento íntimo que o faça tornar-se um homem de seu tempo e de seu país(id.ibid.p. 3). Segundo Bernd, (id. ibid. p.3), Machado de Assis já pressentia os perigos

 

de associar “identidade nacional” à homogeneização dos traços culturais, como já estavam propondo alguns escritores com nítida tendência essencialista. Podemos, pois, constatar pelos exemplos evocados que uma concepção identitária rizomática, heterogênea e conflitual já existia no início deste século no contexto das três Américas.

 

 

E a produção literária de Jorge Amado encontra seu espaço de discussão nesse cenário onde as minorias, enquanto personagens, suscitam outras perspectivas de interpretações no campo teórico. E, neste quadro, a prostituição, o alcoolismo, o homossexualismo, dentre outros temas proibidos não mais o são, assim como o colorido étnico, a sexualidade e os segredos de alcova. E, nesse emergir de novos instrumentos de interpretação, o romance Dona Flor e seus dois maridos encontra-se bem assessorado: a Antropologia, as Ciências Sociais, a Análise do Discurso e os estudos de Imagologia constituem-se em paradigmas importantíssimos para quem acredita que Na verdade, em cada período histórico podemos observar uma certa ordem, a partir da qual se estabelecem, com maior ou menor rigidez, as fronteiras do literário (Roberto Reis, Palavras da crítica, 1992, p.129).

Nesse esteio de novos paradigmas de interpretação, Eduardo de Assis Duarte já se manifestava inquieto com a situação controversa da produção amadiana, em um texto dos anos 90 (“Do rodapé à crítica universitária, Jorge Amado, um caso polêmico” 1991, p.242) quando realizava um comentário a respeito do procedimento da crítica e propõe:

 

Diante do rápido painel aqui traçado espero que fique um incentivo para que se discuta as posturas críticas apontadas, bem como a necessidade de uma reavaliação da obra amadiana como um todo.

 

No ano de 1997, no entanto, Eduardo de Assis Duarte (Classe, gênero, etnia: povo e público na ficção de Jorge Amado. Cadernos de Literatura Brasileira, 1997, p. 88) já observava a existência de um processo de reavaliação traduzidopor

 

parte da crítica universitária, sendo objeto de pesquisas, teses, ensaios e discussões em congressos internacionais. Tal interesse chega em boa hora e contribui para quitar parte da dívida da inteligentsia brasileira para com nosso escritor mais lido e traduzido (“Classe, gênero, etnia: povo e público na ficção de Jorge Amado”. Cadernos de Literatura Brasileira, p. 88).

 

 

Apresento, então, duas visões críticas nacionais e uma estrangeira que discutem a identidade de “mão-dupla” representada no romance Dona Flor e seus dois maridos considerando, como Renato Ortiz (“Estado, cultura popular e identidade nacional”, In: Cultura brasileira e identidade nacional, 1994, p. 139) que

 

o processo de construção da identidade nacional se fundamenta sempre numa interpretação e que ao longo dessa complicada discussão todos, no entanto, se dedicam a uma interpretação do Brasil, a identidade sendo o resultado do jogo das relações apreendidas por cada autor.

 

 E esta interpretação, acrescento, depende de quem fala embasado de todo seu repertório e idéias, quando e onde fala e ainda para quem fala, elementos muito importantes para compreensão do discurso do Outro, em quaisquer contextos e situações. Nesse emaranhado de discussões a produção amadiana é defendida ou atacada, e o crítico busca alternativas para justificar suas posições: é o caso de José Guilherme Merquior (“Nosso Dickens”, In: O elixir do Apocalipse, 1983, p. 178-181) que enumera uma série de elementos perseguidos pela crítica literária para colocar a produção de Jorge Amado no patamar do livro que se afasta do padrão culto (obra amoral e carnavalesca; nos textos amadianos impera o populismo literário; o romantismo que perpassa no texto do escritor baiano é assim considerado: o romantismo de esquerda amadiano; figuras homéricas das estórias amadianas; ciclo da comédia baiana, são alguns exemplos dos vários outros citados por Merquior) argumentando favoravelmente ao escritor baiano comparando-o, observando-se diferenças locais, culturais e linguísticas, com Dickens, Rabelais e Diderot:

 

Nessa ampla galeria, Jorge Amado prima pela seiva cômico-sentimental do seu narrar, combinada com a abrangência do seu registro social. Numa palavra: ele é o Dickens do nosso regionalismo – mas um Dickens, é claro, que tivesse trocado o decoro vitoriano pela sensualidade de cama e mesa da tradição baiana E assim como o mui romântico autor de Grandes Esperanças impregnava seu notável realismo social de pathos e humor, nosso Dickens moreno conjuga protesto socialista com uma apologia rabelaisiana da carne e do prazer. O perfume da prosa amadiana lembra Diderot:‘ felicidade e prosperidade só podem existir numa sociedade em que a lei reconhece o instinto’.

 

Assim é que destaco, inicialmente, o texto de Aluysio Mendonça Sampaio, produzido no ano de 1969, “Dona Flor e seus dois maridos”- p. 66- que mostra, pela primeira vez na crítica nacional conforme minhas pesquisas até então realizadas, uma leitura do triângulo amoroso T- D.F. - V (Teodoro, Dona Flor e Vadinho) movida através de uma escolha mais pela conciliação que pela opção:

 

...em Dona Flor percorreu-se a via da conciliação quase conformista da personagem, mantendo o matrimônio, fortalecido pela presença do terceiro da triangulação amorosa. É como se o romancista proclamasse que vários são os meios para se investir contra cadeias opressoras do casamento, lastreado no estreito moralismo de uma sociedade arcaica e mentirosa.

 

Em sua análise Aluysio Sampaio destaca o humor amadiano como uma estratégia para denunciar os problemas de uma sociedade preconceituosa e hipócrita - p.65-66. Enfatiza sobremaneira o caso da obrigatoriedade de escolha da mulher por um homem que pode, por sua vez, manter relações extraconjugais sem problemas sociais e familiares – os filhos e filhas, presume-se, aceitam , normalmente, as relações sexuais extraconjugais por parte do homem:

 

Dona Flor é o inconformismo da mulher contra as limitações a ela impostas pelo casamento, o marido livre para suas relações sexuais extraconjugais, enquanto é exigida da mulher fidelidade absoluta. Mas, em face dessa restrição imposta pela moralidade dominante, resta à mulher o sonho de um verdadeiro amor e sexo, em formação de uma triangulação oportuna. Dona Flor finda possuindo dois homens, Teodoro e Vadinho, este no diáfano do sonho, o primeiro representando a insipidez do dia-a-dia, em medíocre felicidade, e Vadinho atendendo às aspirações maiores da mulher em busca de um verdadeiro amor, de uma paixão intensa.

 

Conforme a citação, o crítico abre uma perspectiva de discussão para a construção vigente que confere poderes plenos aos homens em situações várias da vida, em detrimento da constante inferiorização da mulher que luta ferrenhamente contra uma tradição fortalecida que a desqualifica constantemente perante o homem- a verossimilhança ficcional permite a discussão: onde está escrito e inscrito que, eternamente, a mulher deverá estar subalterna ao homem em todos os aspectos inclusive no caso do adultério, e mais: sem o direito de reclamar, aceitando a situação passivamente e como algo natural?!... Vale ressaltar que Aluysio Sampaio valoriza a estratégia amadiana que retira as personagens quase sempre dos ambientes miseráveis e da malandragem, mas também da classe média. Jorge Amado assim o faz para, no primeiro caso, ratificar seu projeto de defensor dos pobres, conforme seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, a 17 de julho de 1961 (Discursos, 1993, p. 19):

 

Quanto a mim, busquei o caminho nada comodo de compromisso com os pobres e os oprimidos, com os que nada têm e lutam por um lugar ao sol, com os que não participam dos bens do mundo, e quis ser, na medida de minhas forças, voz de suas ânsias, dores e esperanças. Refletindo o despertar de sua consciência, desejei levar seu clamor a todos os ouvidos, amassar em seu barro o humanismo de meus livros, criar sobre eles e para eles.

 

No segundo caso, o projeto amadiano exerce-se no sentido de chamar a atenção para o fato de que os problemas sociais tanto originam-se das minorias como das classes privilegiadas econômica e socialmente, ou seja: o romance Dona Flor e seus dois maridos encontra-se habitado por homens ricos e classificados como pilantras tanto como os populares amigos pobres de Vadinho. Além do mais, vale a pena considerar: o segundo marido de Dona Flor, todo “certinho” deveria preencher os requisitos necessários a um marido ideal... Eis outro elemento que se pode analisar e discutir a partir do texto amadiano.

Dona Flor é uma personagem que transita entre o ambiente público (desordem) e o privado (ordem) deslizando (Bhabha, O local da cultura, 1998, p. 19) pelos dois espaços numa convivência relacional. Este é o pensamento de Roberto Da Matta no ensaio “Mulher- Dona Flor e seus dois maridos: um romance relacional” (A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil, 1997, p. 97-132). O antropólogo analisa a sociedade brasileira do ponto de vista sociológico e através de um triângulo ritual – rito do carnaval, rito da ordem e rito religioso – onde se encontram embutidas três éticas distintas e simultâneas. O rito do carnaval põe a sociedade brasileira, temporariamente, de cabeça para baixo mas não impede o exame de outros momentos onde esta mesma sociedade celebra o equilíbrio e a ordem- o Caxias pode ser, também, um folião, numa relação onde um comportamento não inutiliza o outro, o importante é circular. No rito da ordem observa-se o peso do governo ao molde da ordem, legalidade e seriedade contrastando com o riso, a liberdade e malandragem – como Vadinho–, elementos articuladores e legitimadores do carnaval. O rito religioso celebra os paradigmas da Igreja Católica reforçadores da ordem legal, mas fora deste mundo, com a proposta de ajudar a uma saída da ‘sociedade’ com todos os seus breves prazeres – o Catolicismo funciona como um chamamento de atenção através do remorso e do peso de consciência, estratégias muito eficientes no processo de construção de homens e mulheres. Analisando-se o comportamento de Dona Flor, ao estabelecer quatro momentos na vida da personagem (momento de viuvez, momento em que resolve frequentar a rua, momento de novas núpcias e o momento da convivência com os dois maridos) sugere a idéia de que a mulher aparece no contexto brasileiro como um elo entre todos os tipos de homens, sintetizando antagonismos e conciliando opostos- Dona Flor estabelece uma ponte entre o morto idealizado e o vivo concreto. Da Matta defende que o estudo relacional possibilita ultrapassar a visão tradicional de identidade nacional como caráter ou traço, determinado por um elemento ou unidade, naturalizando uma sociedade de características paradoxais e dilemáticas. Assim compreendido, o Brasil não é nem o país do carnaval, nem do homem cordial, nem o lugar da violência. Também não é uma sociedade feudal e de desordens administrativas, e sim a junção disso tudo. Observemos um outro momento muito significativo do ensaio, na página 131:

 

Caberia, finalmente, reafirmar uma posição no que diz respeito à obra de Jorge Amado e às teorias do Brasil nela contidas. É impressionante que nenhum crítico tenha percebido essa chamada “guinada” do autor como um modo de poder enfrentar os temas não-oficiais da sociedade brasileira (...). Já não se fala mais em formalismos legais, ou leis econômicas determinativas, ou em mercado de trabalho, ou em leis e ideais políticos como módulos motivadores da ação das personagens. Eles não vivem mais no mundo das leis impessoais e, quando vão à rua, o fazem em busca dos amigos e das relações amicais que realmente embalam o seu mundo e suas existências. Trata-se de um universo como esse que lemos em Dona Flor. Onde todos são amigos de todos e de para cada crise existe um amigo que ajuda, ampara e consola. Será esse o mundo em que todos nós brasileiros gostaríamos de viver?

 

Estamos perante outro recurso teórico: a perspectiva sócio-antropológica atenta para outras possibilidades de leituras do romance Dona Flor e seus dois maridos, alertando para relações legítimas e/ou legitimadas na sociedade burguesa e tais possibilidades revestem-se de ausência de constrangimentos porque são muito cotidianas. E, em assim sendo, um texto literário sugeriria novas teorias do Brasil.

Em outro texto do mesmo ano e publicado no Cadernos de Literatura Brasileira: Jorge Amado (esta publicação é composta de textos- memória seletiva, confluências, entrevista, geografia pessoal, inéditos, variantes, correspondência, ensaios e guias- que homenageiam Jorge Amado), Roberto da Matta afirma o momento marcante do carnaval no romance Dona Flor e seus dois maridos através da personagem Dona Flor, à página 122:

 

De fato, o dado mais extraordinário da história de Dona Flor é, obviamente que ela decide não decidir e permanece casada tanto com o seu segundo marido, o comedido Dr. Teodoro sem, entretanto, deixar de ser amante do primeiro cônjuge, o excessivo Vadinho. Do mesmo modo que o carnaval realiza a mediação entre os universos da tristeza e da felicidade, da riqueza e da pobreza e do lazer e do trabalho, Dona Flor também descobre um caminho alternativo.

 

Embora os espaços sociais estejam sempre demarcados- no carnaval, a presença das cordas dos blocos estão aí para comprovar e muitas vezes em nome de uma proteção aos componentes-, observa-se a alegria esboçada nos rostos de ricos e pobres, brancos e negros. O carnaval traduz a junção de vários momentos e sentimentos de uma sociedade.

Embora não seja objetivo da minha pesquisa trabalhar com entrevista (Alice Raillard, Conversando com Jorge Amado, 1990, p. 296) por conta de sua natureza controversa, vale a pena repetir a opinião do autor a respeito do comportamento de sua personagem, bem como das dificuldades de sua construção:

 

Em Dona Flor também há um caso característico de reação do personagem. Eu já chegara ao fim do romance, exatamente quando Vadinho volta e quer dormir com Dona Flor; ela, que tem um segundo marido, o doutor Teodoro, e que é uma mulher honesta, pequeno-burguesa com todos com todos os preconceitos da pequena burguesia, não quer deitar com Vadinho, mas ao mesmo tempo ela o ama, então ela vai fazer um ebó, para que Vadinho volte ao nada de onde viera.

 

E é nesta dúvida e no comportamento da personagem que recai a maior parte da crítica especializada: a abordagem de um assunto por demais proibido, embora por demais frequente no comportamento social.

Passando para a crítica internacional, Thomas Dowling (Review, 69, 1970, p.13- 14) inicia a resenha do romance in loco referindo-se à alegria do povo baiano e, mais do que um romance, acrescenta, trata-se de um hino de exaltação a vida não tendo defeito nesse sentido:

 

This is a book so flawless and total in its sense of joy, of sheer pleasure in the human variety of life, that it seems more na exultant hymn to some new religion than a novel.

 

Dowling, ao abordar o triângulo amoroso- principal motivo do romance para o crítico,- realiza uma significativa interpretação que abre uma perspectiva de leitura para a relação Flor e Vadinho: fornece dados do romance com a finalidade de mostrar o arranjo final e sugere a situação como algo recorrente na vida real- a morte de Vadinho no carnaval e o fato de ser um amante talentoso e ardoroso, o comportamento comedido e frugal de Teodoro Madureira são elementos que concorrem para os constantes sonhos eróticos e lascivos de Dona Flor. A análise desenvolvida a respeito da contradição entre a realidade caótica da Bahia e a alegria que perpassa no texto são elementos sinalizadores da idealização das personagens ao longo da trama que reúne uma mulher tímida, doce, sensual, ao lado de um Vadinho mentiroso, namorador, trapaceiro, encantador, que não gosta de trabalhar mas é sempre presente na relação sexual, conforme o autor, com ardor tempestuoso but she is poorer in spirit and flesh, especially the latter, since Vadinho was a lover of prodigious grifts and stormy ardor – p. 14. Teodoro é um homem de presença na cama às quartas-feiras e, infalivelmente, aos sábados. Neste sentido, o farmacêutico reúne qualidades contrárias às de Vadinho, embora seja companheiro, generoso e educado. Mas, sonhos proibidos passam a rondar Dona Flor e perturbar sua formação moral. Para o crítico, Flor merece o melhor da vida, não uma alegria incompleta. E esta alegria chega com o retorno de Vadinho. Aí, então, configura-se uma ménage-à-trois temperado de adultério, por um lado; por outro, é um casamento aberto, exemplo de exercício dos direitos conjugais. Admite Dowling que esta não é uma situação sem problemas para a personagem, mas Amado trabalha na mais completa satisfação, engenhosa e ironicamente. Isto tudo numa explosão de alegria como em nenhum outro da literatura.

Assim, Jorge Amado já vislumbrava e rondava a sociedade burguesa revelando segredos da classe, segredos até então comuns e visibilizados na classe considerada baixa. Acredito que esta é uma atitude que sinaliza para o dado de que vivemos um outro tempo. E, para que possamos vivê-lo sem remorsos e pesares, devemos nos munir de instrumentais teóricos capazes de desestabilizar e/ou remexer o eficiente pensamento eurocêntrico até então seguido como verdade única e absoluta.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

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BHABHA, Homi K. O local da cultura.Trad. Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: UFMG, 1998. (Coleção Humanitas).

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CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. Trad. Ana Regina Lessa, Heloísa Pezza Cintrão. São Paulo: EDUSP, 1997. (Ensaios latino-americanos).

DAMATTA, Roberto. A Casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. 5 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

DOWLING, Thomas. “Dona Flor and her two husbands”, Trad. Harriet de Onís. Review, 69. New York, 1970.

DUARTE, Eduarte de Assis. Do rodapé à crítica universitária Jorge Amado, um caso polêmico. Anais ABRALIC - Literatura e Memória Cultural, v. 2. Belo Horizonte: ABRALIC, 1991.

MERQUIOR, José Guilherme. O Elixir do Apocalipse. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 1983. (Ensaios literários).

ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. 5 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

RAILLARD, Alice. Conversando com Jorge Amado. Trad. Annie Dymetman. Rio de Janeiro: Record, 1990.

SAMPAIO, Aluysio. Jorge Amado: o romancista. São Paulo: Maltese, 1969 (Ensaios).

UM GRAPIÚNA NO PAÍS DO CARNAVAL. Simpósio internacional de estudos sobre Jorge Amado. Apres. Myriam Fraga e Ildásio Tavares; Org. e rev. Vera Rollemberg; Textos Eliane Azevedo et. al; Capa e ilust. Floriano Teixeira. Salvador: FCJA / EDUFBA.